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Editorial Achim Steiner: Como acender a luz para bilhões de pessoas?

 

 

Muitos de nós vivemos em um mundo que desconhece a escuridão real. Os moradores das cidade do mundo – mais de 54% da população global, de acordo com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU – são menos propensos a verem a luz de uma estrela do que uma luz de rua.

Mas, para 1 a cada 7 pessoas, o oposto é verdadeiro. De acordo com o Banco Mundial, mais de 1 bilhão de pessoas, em sua maioria habitantes de regiões em desenvolvimento da Ásia e da África, ainda não possuem acesso a uma eletricidade confiável.

Esta ausência cria profundos desafios para as sociedades e economias. É um impedimento para a educação, os negócios e a construção comunitária. A falta de eletricidade é um obstáculo fundamental para o desenvolvimento sustentável.

Considere um país equatorial onde o sol se põe às 6:30. Sem eletricidade, como um estudante fará para estudar para uma prova da escola? E o que dizer sobre um vendedor de rua cujo negócio é fechado pela escuridão todos os dias? Como uma família poderá ligar telefones celulares, computadores e televisões para se conectarem com sua comunidade e com o mundo? Como hospitais rurais poderão estocar medicamentos vitais?

A questão do acesso à eletricidade é também relevante para a sustentabilidade ambiental. As necessidades de iluminação são supridas em muitas comunidades rurais da África e da Ásia através da queima de querosene ou de biomassa, que produz gases nocivos e poluentes. Esses gases não apenas contribuem para o aquecimento global, mas também afetam seriamente a saúde humana.

Tradicionalmente, temos expandido o acesso à eletricidade através da extensão de linhas e da construção de novas usinas de combustíveis fósseis para suprir a demanda. Em um mundo pós-Paris, onde países se comprometeram a metas de redução de gases de efeito estufa e se voltaram para um futuro sustentável, esse caminho de desenvolvimento convencional se tornará cada vez menos possível.

Mas onde velhos caminhos terminam, novas rotas estão sendo traçadas. Estimular o desenvolvimento de energias renováveis é permitir a geração de uma eletricidade favorável ao meio ambiente ao passo em que tecnologias inovadoras estão aumentando a disponibilidade dessa energia em comunidades remotas. Esses desenvolvimentos estão sendo encorajados por fortes compromissos governamentais e reconhecimento dos negócios sobre as oportunidades comerciais envolvidas.

Afinal, suprir nossa eletricidade através de fontes renováveis é a unica maneira de simultaneamente fornecer energia para o planeta e cumprir os compromissos de mudança do clima acordados em Paris. Felizmente, estamos no caminho certo.

Em 2014, 50% do total de investimentos na geração de eletricidade foi em renováveis. Países como o Paraguai, a Noruega e a Islândia estão virtualmente 100% abastecidos por energias renováveis.

Mais recentemente, economias dominadas pelo petróleo como a Arábia Saudita e o Kuwait estabeleceram grandes compromissos com a energia limpa. O governo saudita pretende gerar 41 gigawatts de energia solar ate 2040, enquanto o Kuwait estabeleceu um objetivo de em 2020 ter 10% da energia produzida a partir de renováveis.

E onde o acesso à eletricidade é mais necessitado, os renováveis têm dado enormes avanços. A Iniciativa Africana para Energias Renováveis (AREI) tem um plano de dobrar a energia renovável do continente até 2020 ao adicionar 10 mil megawatts à sua capacidade. A segunda fase do projeto pretende alcançar 300 gigawatts de geração de energia renovável até 2030.

Na empolgação para a COP21, muitos não viram o anúncio da União Europeia e dos países  do G7 que um montante de 10 bilhões de dólares foi prometido à AREI. Com esse apoio financeiro da comunidade internacional e liderança de instituições como a União Africana, a Conferência Ministerial Africana  sobre o Meio Ambiente e o Banco de Desenvolvimento da África, existe agora um enorme potencial para trazer energia limpa aos 600 milhões de pessoas do continente.

Ao passo em que a África se movimenta para ter mais energia fornecida por recursos renováveis, mecanismos inovadores de entrega tambem estão sendo desenvolvidos na região. A M-KOPA é uma tecnologia originada do Quênia que fornece eletricidade solar sob demanda para consumidores de lugares remotos.  Cerca de 250 mil paineis solares com esse sistema foram vendidos no Quênia, em Uganda e na Tanzânia, oferecendo a clientes de baixa renda o acesso a energia limpa confiável. Essa empresa pretende vender 1 milhão de unidades até 2018.

Em um nivel multilateral, o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, lançou a iniciativa Energia Sustentável Para Todos, em 2011, para avançar o alcance universal de energia e dobrar as taxas de eficiência energética e a fatia de energia renovável no mix global. A iniciativa é apoiada pela adoção das melhores práticas e soluções inovadoras entre stakeholders e o rastreamento transparente do progresso em seus três objetivos. Dezenas de parceiros de governos, negócios e da sociedade civial estão ativamente engajados neste trabalho.

Este tipo de parceria complementa diretamente não apenas os compromissos de Paris, mas também os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) adotados pelas nações do mundo no último mês de setembro. Em particular, com o Objetivo 7 – acesso a energia confiável, sustentável e moderna para todos – nós podemos diretamente ajudar a alcançar muitos dos demais ODS, incluindo a melhoria da saúde humana, da educação e do emprego.

É esse tipo de parceria que também nos permitirá rapidamente aumentar o acesso à energia limpa. Governos começaram a estabelecer o tom de que o futuro da energia mundial será essencialmente renovável. Quanto mais fortes esses comprometimentos, mais investimento veremos do setor privado.

Aqueles do setor privado que viram os sinais dos líderes mundiais antes e depois de Paris possuem uma vantagem. Nós estamos no caminho para um futuro renovável. O quão rápido chegaremos lá, dependerá de continuos comprometimentos dos governos e do impacto dos líderes de negócios que reconhecerem a oportunidade que existe na sustentabilidade.

 

Achim Steiner, Diretor Executivo do PNUMA - 23 de janeiro de 2016

 

*Texto publicado originalmente em inglês no site do Fórum Econômico Mundial